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"Pai" do Samba, Jongo deve ser lembrado também em tempos de Carnaval

02/24/2016

 

 

No início de todo ano, as Escolas de Samba - principalmente do Sudeste - encantam o carnaval de várias cidades e atraem olhos do resto do mundo ao Brasil. Tradicionais e importantes na formação cultural destes lugares, essas instituições ajudaram a desenvolver a cultura negra Brasil afora e a consolidar este ritmo como canto de resistência, alegria e luta. Longe dos holofotes e do colorido das passarelas carnavalescas está o jongo. Para muitos considerado o pai do samba, o ritmo continua vivo e representa talvez o mais forte costume dos africanos que chegavam ao Brasil no tempo da colônia. Presente em diversas celebrações do QUIPEA, o jongo vai muito além de uma dança. Se em tempos de carnaval exaltamos o samba e o canto popular, é impossível não lembrar do jongo como ritual sagrado que ajudou a formar a identidade cultural do Brasil a partir da África.

 

 

A tradição começou quando, nas fazendas de café do sudeste, os escravos dançavam e cantavam numa celebração repleta de códigos, dialetos e representações de sua terra natal. Com hierarquia própria, o Jongo e sua harmonia conduzida pelos tambores é uma das mais legítimas e preservadas representações da cultura africana no Brasil. Em várias comunidades remanescentes de quilombo, as caxambuzeiras jogam jongo de corpo e alma valorizando nossas origens e mantendo esta cultura de resistência ainda viva entre as gerações mais jovens. O ritmo é considerado pelo IPHAN um Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Um dos mais importantes elementos numa roda de jongo é o tambor. É com o toque deles que o ritual se forma e o canto em coro se inicia. O tambor grande é conhecido como Caxambu e faz par com o tambor menor, que é chamado de candongueiro. Muitas vezes os tambores do jongo são fabricados artesanalmente nas próprias comunidades remanescentes de quilombo. Esses instrumentos carregam grande identificação entre cada praticante e suas ancestralidades jongueiras.

 

 

Os pontos de jongo

 

As letras do jongo relatam principalmente o cotidiano do povo vindo da África. O ritual é muitas vezes contemplativo: faz saudação aos antepassados dos quilombolas, a uma entidade específica e ao lugar onde a roda é jogada. No passado colonial brasileiro, os escravos dançavam o ritmo sagrado até o amanhecer nas fazendas de café entoando cantos para alegrar e distrair seu povo.

 

Quem observa de longe uma roda de jongo não tem ideia que o ritmo é repleto de códigos e hierarquias que representam a cultura de nossos antepassados. Os ‘’pontos de jongo’’ são referências simbólicas sempre presentes quando o jongo é jogado, mas somente compreendidos por quem participa ativamente deste tipo de cultura. Esses códigos têm referências que vão desde saudações aos ancestrais jongueiros até mesmo a magia. Muitas vezes, enquanto os jongueiros entoam cantos, alguns pontos são emitidos e os demais jongueiros participantes da roda tem a missão decifrá-los como parte do ritual quilombola.

 

O Jongo e o Carnaval

 

No Rio de Janeiro, é impossível desassociar a força do samba com as origens do jongo por toda a extensão do estado. Nos morros da cidade - que no início do século passado abrigaram os ex-escravos e ex-trabalhadores de fazendas no interior - o jongo continua vivo e se confunde com o ritmo musical mais famoso do Brasil. No tradicional bairro de Madureira, por exemplo, que abriga escolas de samba como a Portela e o Império Serrano, o jongo do norte fluminense esteve presente desde sempre. Roberto Ribeiro, um dos maiores sambistas da história do Brasil, era nascido em Campos e trouxe em suas letras, bagagem e formação cultural aquele canto que era lembrado por seus ancestrais nas lavouras da divisa do estado. O sambista, ao lado de nomes como Dona Ivone Lara e Monarco, ajudou a desenvolver e manter viva a tradição negra para as atuais gerações brasileiros e o fizeram a partir do jongo, do afoxé e de maracatus.

 

Numa das letras do músico, percebemos a referência clara e apaixonada ao canto, ao jogo e ao ritual de liberdade e confraternização das antigas senzalas.

 

"Ginga, Angola! Não chora povo bantu!
Canta, Congo, no jongo do caxambu! 

Lá nas terras de Matamba
Quando o sol me viu nascer
Minha tia, Sinhá Samba,
Lavou meu camutuê
Com folhinhas de mutamba
Que ganhou de Catendê.

Meu pai é Lembarenganga
Caviungo é meu avô
Sou a paz de Zumbaranda
Flecha de Mutalambô
Sou as águas da Quianda
Sob as cores de Angorô.

 

Na toada do quiçanje
Na batida do gonguê
Sou o rei Jaga-Caçanje
Sou couro de munganguê
Danço pra Cambarangüanje
Canto alto pra esquecer"

 

(Roberto Ribeiro)

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